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sábado, 28 de abril de 2012

Mário Feio de Lemos, Histórias da Juventude e a Lena no hospital


Antonio William Cidrão Assis, amigo do Mário Feio de Lemos na juventude, em Fortaleza
Foto: Cristina Lemos
Tarde do dia 28 de junho de 2007. Por um capricho do destino, a mãe do Marcus (e minha) havia dado início a um tratamento contra o câncer que se formara no cérebro com uma cirurgia, no dia 05 de junho.
Os riscos de sucesso eram tão grandes quanto os de fracasso e tanto ela como nós, apostamos no sucesso. Deus não quis dessa forma e, talvez por erro médico, talvez por mão do destino, a Maria Helena Feio de Lemos entrou para o bloco cirúrgico às 6 horas da manhã e teve sérias complicações decorrentes da cirurgia.

A Lena ficou em tratamento, na UTI, desde o dia 05 de junho e lá permaneceu por 60 dias, até ser desligada do corpo físico, em 29 de julho de 2007.
Eis o por quê de essa data, dia 28 de junho de 2007, ter marcado tanto para mim.
Tratava-se do dia das eleições para a direção do sindicato do qual eu faço parte (Sintrajufe-RS) e, tratava-se, por isso, do único dia em todo o período de estada da Lena na UTI do Hospital Mãe de Deus, em que eu não estive presente em todas as 3 visitas permitidas aos familiares (30 minutos pela manhã, 30 pela tarde e 30 à noite).
Isso não é fácil de se esquecer, não é? Em todos esses dias, em todas essas manhãs, tardes e noites, o Marcus foi religiosamente até a ante-sala da UTI do HMD e me esperava para que entrássemos juntos - apenas dois familiares - para a cabeceira da Lena conversar com ela um pouquinho.

Por isso, amigos que nos acompanham, não esqueço que, após muitos anos de trabalho na Justiça, houve grande surpresa quando esse colega de longa data, Antonio William Cidrão Guedes, me perguntou se acaso eu conhecia o "Mário Feio de Lemos". "Meu pai", respondi.

Dali em diante tive a grata surpresa de escutar histórias incríveis sobre a juventude e a adolescência do Mário, coisas absolutamente novas para a gente, que nunca tivemos contato com a família e os amigos dele que moravam no Norte e no Nordeste do país.

Esse blog vai relatar algumas histórias bastante engraçadas que chegaram ao meu conhecimento sobre a vida pregressa do pai, até então desconhecida por nós.

domingo, 18 de dezembro de 2011

Marcus presenteava com cartões de Natal



"Quando nos lembramos das flores,
Das ervas-daninhas nos esquecemos;
Quando nos lembramos das bênçãos,
Das necessidades nos esquecemos;
Quando nos lembramos dos risos,
Das lágrimas nos esquecemos;
Quando nos lembramos dos momentos felizes,
Do tempo nos esquecemos...

Feliz Natal! Venturoso Ano Novo!

São os votos de seu filho
Marcus F Lemos
Natal - 1977

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Juarez, amigo e Fotógrafo, trouxe a fotografia para a vida do Marcus




Um dos fatos que vieram a marcar definitivamente as vidas da comunidade foi a abertura da ACM – Associação Cristã de Moços, ali, bem pertinho da gente, na Rua Santa Catarina. Em um primeiro momento, parecia apenas um clube e atraiu a curiosidade de todo mundo ao redor. A primeira na família a desvendar aqueles caminhos e começar a frequentar a ACM, foi a Rose. Empolgada com a novidade, comentou conosco sobre a cancha de esportes, sobre a presença permanente de professores, jogos abertos à comunidade e muita gente circulando por lá para fazer amizades.
A Rose sempre teve esse dom, o de fazer novas amizades com facilidade. Ela ia sempre lá para jogar Ping Pong e fez aquela propaganda. Veio também a notícia de que tinha piscina em algum lugar (que não era bem ali) o que já bastou para aguçar a curiosidade de todo mundo.


O Marcus foi logo em seguida, descobrir aquela coisa nova e bem mais perto do que o nosso querido Centro Comunitário Primeiro de Maio. A ACM abriu as portas na distância de meia quadra da casa da Vó Ecilda. Assim, convencidas as mães da importância do assunto, levamos os papéis e fizemos as carteirinhas da Associação Cristã de Moços, o que nos permitiria participar das atividades e frequentar as instalações, jogar nas canchas e ficar por dentro de tudo o que acontecia ali.
Assim, após a chegada do colégio, tirar o uniforme e comer alguma coisa, era imperativo passar a tarde por lá.
Foi ali que, jogando futebol de uniforme azul e com a meia de jogador até o joelho, a Rose me mostrou pela primeira vez o Juarez. Foi através do lance que rolou entre a Rose e o Juarez que ele veio a conhecer o Marcus e que nasceu uma amizade para a vida toda.
O Juarez trouxe uma nova perspectiva para o Marcus, que era de poucas palavras e sempre fechadão. A partir do jeito dele de ver o mundo, o Marcus amadureceu e aprendeu - e ensinou - coisas novas.


Fotos: Juarez e Marcus brincando de fotografia no contraluz na praia do Gasômetro, em Porto Alegre. Juarez Correa Machado Filho - ACM Zona Norte, julho 2011.

domingo, 28 de agosto de 2011

A Vera Regina...


Uma das pessoas que mais marcou as nossas vidas, desde pequenos, foi, sem dúvida, a Tia Vera. Uma das irmãs mais novas, a última que ficou ainda morando com a Vó Ecilda e o Vô Tinto na Assis Brasil, enquanto os demais já haviam saído para suas próprias casas.
Ela não era só uma tia. Era a alegria dentro da casa da Vó.
A Vera Regina tem uma das mais lindas gargalhadas que eu já ouvi. E essa risada costumava ecoar nos corredores da casa a qualquer hora.
As crianças corriam para perto dela, os adolescentes da época - Os Bichos -vinham pedir conselho e trocar uma idéia; e os adultos tratavam de vir conversar até tarde, ali, no quarto das gurias.
Naquele quarto simples, em que ela dormia em uma cama meio-casal, para nós era um grande pedaço do mundo, onde a gente podia sentir o poder dela.
Falo por mim, a Vera é a minha Madrinha, escolhida pela Lena para o meu batismo.
Ah, antes que eu apanhe: a Vera Regina é madrinha da Rosemary, também, ok? E um detalhe: foi escolhida por ela mesma, para a cerimônia de Crisma. (tá bem assim, Odibaí?)
Bem, retornando ao que eu contava:

Minha Dinda, ou, como ela gostava de ser chamada: minha Dindinha queridinha do coração.
A Vera Regina é a melhor amiga da Lena e sempre frequentou a casa dos Feio de Lemos, fazia da nossa uma segunda casa. Por isso sempre a tivemos sempre muito presente. Acontecimentos da vida dela refletiam direto na nossa, e vice-versa.

É importante registrar aqui o quanto a Vera Regina (na tradução: a Verdadeira Rainha, como ela me disse um dia) se mostrou diferente de todo o restante dos irmãos e irmãs.
Desde pequena demonstrou uma personalidade marcante, com opiniões diferenciadas e um certo talento para lidar com as coisas da vida tão destoante dos demais que, na maioria das vezes, era tida como a louca da família.
Quando guria, ela ria bastante desse rótulo.
O fato é que, com cerca de 9 anos de idade, a Vera começou a ter visões. Visões de fatos, acontecimentos, alguns acontecidos, outros por acontecer. Algumas pessoas conhecidas, outras não.
A Vera descobriu, desde pequena, que era uma médium madura, poderosa e bastante desenvolvida. (Aos navegantes: Médium é um termo dicionarizado que significa, de modo resumido, uma pessoa apta a ter comunicações com espíritos, que passa a mediar os contatos entre esse e o outro mundo, invisível para a maioria)

Dessa maneira, segundo ela me contou, sendo de um lar de pai e mãe católicos, sentiu a necessidade, ou melhor, atendeu ao chamado e passou a frequentar a Casa Espírita Paz e Amor. Se não me engano, ajudada pela Dona Helenita, nossa maravilhosa vizinha.
Precisou fazê-lo às escondidas, é claro. Após algumas visitas, foi apresentada ao grande Irmão José Simões de Mattos (para nós, Irmão Mattos) e mudou o curso da própria vida.
A partir desse abençoado encontro, a Vera deu início aos seus estudos da doutrina espírita, das obras básicas de Allan Kardec e começou o aprendizado necessário para disciplinar todo esse conhecimento que ela trazia do berço.
Mais um esclarecimento: existem variados tipos de mediunidade. Algumas pessoas vêem, outras ouvem perfeitamente as vozes dos espíritos, outras ainda sentem determinadas sensações, como revelações que ficam gravadas nos locais em que aconteceram, etc.
A Vera, desde cedo, sentia e convivia com mais de uma dessas manifestações mediúnicas.

E foi dessa maneira que ela soube, desde menina, como seriam algumas coisas na vida dela e nas vidas das pessoas que a rodeavam.
Quando a Lena engravidou do Marcus, ela disse para a irmã quem ele era e como seria (e que não seria fácil).
Quando ela engravidou novamente, a Vera explicou que seria uma menina e que nós nos conhecíamos de muitas outras passagens. Na verdade, em mais de uma ocasião, ela me olhou fundo nos olhos e disse: durante anos eu te esperei nascer, minha amiga.

Numa manhã ensolarada de sábado, entrei no quarto dela e me sentei em uma mesinha que havia bem no centro da peça, coberta com uma toalha e com uma cadeira de cada um dos lados. Sobre a toalha havia um baralho cigano, o qual ela usava para atender algumas pessoas, quando o Vô deixava. Abri o baralho e fiquei lendo as figuras coloridas e interessantes que pareciam mexer tanto com as pessoas que iam conversar com ela. Ela entrou, sorriu, mexeu comigo e me fez algumas perguntas, às quais, supreendentemente, eu parecia ter respondido certo. Ela brincou comigo que ainda era cedo, mas que ela me ensinaria o que sabia.
A bem da verdade, segundo ela me contou, anos mais tarde, o baralho era mais um apoio para as pessoas que vinham consultar... ela fazia a leitura através da voz do espírito que se sentava ao lado e contava tudo o que ela precisava saber...

A Vera acompanhou o nascimento do Marcus e o meu, acompanhou cada passo do casamento da Lena, a separação do casal Maria Helena e Mário Feio de Lemos e testemunhou de perto toda a luta da Lena para criar o casal de filhos e sustentar a casa.

Vamos voltar a essa figura incrível muitas vezes. Por ora, que Deus abençoe nossa amada Vera Regina!

Foto: Vera sorrindo com os dois filhos pequenos, na VARIG

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

E nasceu a Carolina... afilhada do Marcus

Casa da família na Avenida Assis Brasil, aparência e moradores atuais - Foto de Juarez Machado

Pouca gente sabe, mas ainda adolescente, aos 13 anos, o Marcus ganhou a responsabilidade de ser padrinho de um nenê novo na família. Em 15 de agosto de 1977, no meio do inverno gaúcho, nasceu a Carolina da Silva Pinheiro, filha do Renato Pinheiro (grande figura na vida do Marcus) e da Vera Lúcia da Silva Pinheiro.

Para quem viveu e só para quem ouviu falar, cabe relembrar: a casa da Vó Ecilda, na Avenida Assis Brasil, 911, foi uma conquista do Seu Joventino, lá na década de 50 e passou a ser um ponto forte de união do clã Pinheiro.

Como é bastante comum nas famílias brasileiras, o patriarca e dono da terra – no caso o Seu Pinheiro, chamou para perto os filhos e filhas que, já casados e com filhos, não tinham sua casa própria e passaram a morar no mesmo pátio.

Na tarde fria do dia 14 de agosto, a Vera Lúcia deu baixa no Hospital Nossa Senhora da Conceição, e chegou a notícia do nascimento do nenê. Naquele tempo, o sexo do bebê só era conhecido no nascimento, e nasceu uma menina: a Carolina.
Uma alegria para todos, aquela bonequinha de pouco mais de 40 centímetros, ficou uns dias ainda no hospital antes de vir para o IAPI.

A Carolina foi batizada em casa e teve o privilégio de ser apadrinhada pela Rosemary e pelo Marcus. Formalmente, ou seja, religiosamente, era afilhada do Vô e da Vó (é isso, né Carol?)

A casa da Assis Brasil – como era
Uma casa modelo do IAPI, construída e entregue pelo próprio Getúlio Vargas aos trabalhadores da época, pelo critério do número de filhos. Era composta de sala, cozinha, banheiro, três dormitórios, área coberta e um amplo depósito no pátio, em um terreno bastante grande em relação aos padrões de hoje.
Esse blog já referiu http://marcusfeiodelemos.blogspot.com/2011/05/casa-dos-pinheiro-em-porto-alegre.html, que o Vô Joventino fez uma escolha na entrega das chaves. Escolheu a melhor casa, sem o espaço de garagem, mas recebeu a compensação de um terreno de 50 metros de comprimento, com 25 metros – acho – nos fundos.

Para abastecer o fogão à lenha da Vó Ecilda, o estoque de tocos de madeira, de gravetos e galhos era a casinha da lenha, uma casa muito bonitinha, construída sob encomenda e com muito amor pelo Tio Saul para atender as necessidades de sua mãe. Essa casa foi instalada bem lá nos fundos do fundo, atrás até da casa do Pelé, um dos primeiros cães Dobermann que viveram por lá. (Sobre esse carinho especial entre mãe e filho, que havia(há) entre a Ecilda e o Saul, esse blog vai tratar em outras postagens, ok?)

O Cortiço

Vista da Assis Brasil, a casa, de três dormitórios, era do vô e da vó. Contudo, a partir da porta dos fundos, o quintal foi mudando, ano a ano. Primeiro a Sônia, filha mais velha – entre as mulheres – e segundo a Lena: a “queridinha do Vô Joventino”, incorporou o quartinho dos fundos que existia e construiu uma casa completa, no meio do pátio.
Depois, o Renato, filho mais novo e boêmio desde guri, ainda morava com os pais. Quando a paixão pela nova namorada bateu forte, o Renato trouxe a Vera Lúcia para morar com ele. Em um primeiro momento, enfrentou os narizes torcidos dos irmãos e trouxea namorada para morar com ele no “quarto do meio”, ou quarto dos guris, dentro da casa da Vó.
Acredito que tenha sido um pouco pressionado pelos demais, mas o fato é que construiu umas peças no fundo do pátio, colocando para o lado a casinha da lenha e passou a morar ali com a nova família.

Convidada por último, a Lena mandou construir mais duas peças e recebeu os dois quartos que o Vô e a Vó não utilizavam para serem um quarto e sala. A fachada da casa ganhou uma porta lateral e nasceu a casa dos Feio de Lemos – ou seja, a Lena veio morar com os dois filhos, ato que repercutiu muito na vida do Marcus.

Foto: Cortesia do fotógrafo e grande amigo do Marcus, Juarez Machado   

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Chegada do bebê, ou, como a Lena dizia: A cama quebrada

Lena e Cristina, março de 1968






A Lena contava esta história com uma cara muito fechada, de repreensão.
Ela retornava do hospital Getúlio Vargas, após o nascimento da filha menor, a Cristina.
Sempre que uma parturiente retorna para casa, são precisos alguns cuidados, especialmente no que toca à higiene e ao conforto da mulher.
Era difícil para a Lena lembrar, pois houve bastante sofrimento físico para ela nos partos dos dois filhos.
É natural que se tente manter a recém-chegada mais protegida, sem realizar muito esforço físico e acomodada sobre lugares macios, como sofás, camas e almofadas.
O que a Lena contava, e braba, é que a cama do casal havia sido quebrada meses antes do parto da nenê e que, ao sair para o parto, ela havia tinha pedido diretamente ao pai, o Mário Feio, que desse um jeito naquela cama.
Certamente ela imaginava que, quando voltasse, ele teria realizado essa – e outras tarefas – necessárias para o bem estar da família.
Bem, acontece que o Mário nunca teve essa formação específica e, na certa, criado desde pequeno em colégios internos, nunca viu como agia um verdadeiro chefe de família.
Para encurtar a nossa já pequena história, a Lena passou alguns dias hospitalizada e voltou com o novo bebê nos braços. Primeiro, passaram na casa da Sônia, onde o Marcus esperava a chegada da mãe e do irmão.
Na empolgação da sala da casa da Sônia, na Rua Morretes, a primeira surpresa: o Marcus e a Rose, a prima mais velha, filha da madrinha, corriam um atrás do outro, com um pedaço de pau de mais ou menos uns 70 cm na mão. Na perseguição, o Marcus tropeçou e caiu com o pedaço de madeira embaixo do queixo, que ficou ali, cravado na pele, pendurado quando ele se levantou...

Essa cicatriz permaneceu no queixo dele para sempre, e na alma da Lena também.
Quando ela terminava esse relato, ele levantava a cabeça e mostrava o risco que ficou ali, embaixo do maxilar. Nunca se soube o que ocorreu ali, se um tropeço ou um empurrão, mas o filho dela ficara marcado e era com isso que ela se importava, lógico.

E a cama quebrou

Passado o susto e atendida a emergência médica, a família, agora com quatro integrantes, retornou à casa, na Travessa Jaguarão, em que moravam.
Feliz pela chegada da mulher e do retorno da vida ao seu normal, o Mário nada disse à esposa sobre suas tarefas agendadas.
E foi assim que, após se acomodarem aqui e ali, ela sentou na beira da cama (como se vê na foto) para amamentar a nenê e descansar um pouquinho, após um dia exaustivo e cheio de novidades e, como vocês já devem estar antecipando, houve um barulho de estrondo e no minuto seguinte, a Lena caía sentada sobre a madeira da cama, que desabou inteira...
A cama quebrada se desmontou inteira, com a Lena em cima e a criança no colo.
Tendo de escolher entre se apoiar para não se bater ou segurar a nenê firme nos braços, a Lena – lógico – optou pelo segundo, e se machucou, bastante...

Não é preciso ser vidente para imaginar a bronca que o Mário Feio ouviu, né?
O Marcus? deve ter presenciado tudo, observando em silêncio essa lição.

Maria Helena Pinheiro, uma jovem adulta

Maria Helena Pinheiro em 1963-1964

Em Santo Ângelo

Catedral de Santo Ângelo, Praça Pinheiro Machado - Fonte:  Santo Ângelo 302 anos de história

Acho que ninguém(ou muito poucos)sabe(m)que a família do Marcus morou um tempo no interior do Estado, mais precisamente na Região das Missões, em Santo Ângelo.
Em razão de uma oferta de trabalho ao pai dele, Mário Feio de Lemos, a família toda se tocou de mala e cuia para essa distância: 459 km de Porto Alegre.
Aqui no Rio Grande do Sul, antes de ser advogado, o pai dele, Mário atuou na VARIG, na área de compras, na década de 60, como Representante da Indústria de Alimentos Quaker e, muitas vezes, como vendedor.
Éramos pequenos e muito pouca coisa eu lembro em uma sequência que tenha lógica para poder contar aqui...
Sobre a mudança para Santo Ângelo, o Mário Feio e a Lena foram primeiro e, segundo minha lembrança, ficamos aos cuidados da Vó Ecilda, pela primeira, última e única vez.
Quem conhece(u) a Maria Helena sabe, ela não tinha por hábito deixar os filhos pequenos com alguém para ir fazer alguma coisa, especialmente com a Vó, a quem ela nunca queria dar trabalho. Ela sempre levava os filhos junto, ou, em caso de não poder levá-los, simplesmente deixava de ir.
Depois de terem encaminhado tudo por lá, voltaram para nos buscar.

A viagem a Santo Ângelo

Recordo que embarcamos à noite em um fusca branco e que pegamos a estrada. O Marcus com cerca de 6 anos e eu com 3, mesmo vestidos e com calçados nos pés, ganhamos nossos travesseiros e uma coberta por cima. Assim, acomodados, pegamos no sono confortavelmente lado a lado, dormíamos boa parte da viagem deitados de todo o comprimento no banco de trás.

Duas coisas que mais marcaram aquela viagem, e outras que fizemos de Porto Alegre a Santo Ângelo, foram o tempo da viagem (uma eternidade!) e as marcas da terra vermelha nos vidros do fusca.
Quando chovia, então, o carro começava a derrapar e dançar a parte traseira, enquanto espirrava para todos os lados aquela massa vermelho. Essa era a visão que eu tinha da viagem: o vidro traseiro do fusca no fundo escuro da noite, e a camada grossa de barro vermelho do lado de fora.

Não sei muito bem o tempo que a família passou por lá, imagino que chegou a um ano, talvez um pouco mais.
Foi a única vez em que a família Feio de Lemos morou em uma casa tão bonita e tão grande. Era uma casa chique, com dois andares.
Mais do que isso: era uma bela casa com sacadas, jardim e pátio. Foi a oportunidade em que a Lena e o Mário puderam oferecer um quarto individual para cada um dos filhos.

Foi nessa fase da vida do Marcus que ele conheceu o amigo que mais marcou a infância dele, o Aramin. Marcou a tal ponto, que depois de adulto, pesquisou na internet e tornou a voltar a Santo Ângelo algumas vezes, em busca de retomar aquela amizade que ele prezava tanto. Sobre o Aramin e sobre esse encontro, vamos contar em outro momento.

Foto da Lembrança Escolar do Marcus, tirada na Escola em Santo Ângelo, 1971

Neste, voltemos ao fato de que lá o Marcus iniciou a vida escolar. Lá ele vestiu o uniforme da escola pela primeira vez (foto) e, de lá ele tinha uma recordação que conto agora:

Como em todas as cidades pequenas, existia uma praça no centro. E em torno dessa praça, aos domingos, passeavam as famílias para sua distração. Passeavam a pé e bem vestidos os moradores, moradoras e crianças, alguns por ali até passeavam de carro.
O Marcus tinha uma lembrança muito forte desse período em que vivemos lá em Santo Ângelo.
Ele já era um menino e possuía o seu próprio círculo de amigos, frequentando o jardim de infância e achava legal também fazer aquele trotoir na praça, aos domingos, para ver e ser visto.
Do que ele nunca mais esqueceu, e quem conviveu com ele pode imaginar o quanto isso pode ter sido marcante, foi que, apenas durante aquele (curto) período, em toda a sua infância, que os passeios puderam ser a bordo de um carro.
Ele era um dos poucos guris que tinham carro e (olha só), ele me disse que tinha o maior orgulho de ver a mãe dirigindo! Achava chique ter uma mãe motorista, diferente das outras.

Foto: Santo Ângelo 302 anos de história
Foto da colunata da Catedral de Santo Ângelo, Praça Pinheiro Machado, de Ander Vaz

quinta-feira, 2 de junho de 2011

O maninho que a Lena trouxe não era igual ao irmão do Gilson... ou, O nascimento da irmã do Marcus

Com uma semana de vida, Cristina, irmã do Marcus, com a cicatriz do parto no rosto.

Chovia muito em Porto Alegre. A tempestade já durava o dia todo e a noite caía junto com as gotas daquela chuva. Da janela do hospital Getúlio Vargas, a Maria Helena olhava para a rua e pensava: “Será que esse nenê nasce hoje?”.
Ela já estava lá desde domingo, dia 24 e já era terça, 26 de março de 1968. Ela nunca tinha gostado muito de hospitais e, afinal de contas, o filho estava em casa, sozinho, apenas com o pai, e ela não não confiava muito nele para cuidar do Marcus por tanto tempo.
Naquela manhã, enquanto estava sozinha no quarto, ela sentiu um movimento na barriga. O nenê costumava se mexer, é claro. Todavia, aquele movimento era diferente dos anteriores. Ela sentiu que o nenê se movera de um lado para o outro. Ela sentiu e foi baixando os olhos assustada: era possível perceber que o nenê - e tudo o que o envolvia - estava do lado esquerdo, isto é, o lado direito da barriga acabava de ficar vazio. “Será que está tudo bem?” pensou.
Essa preocupação permaneceu o dia inteiro, assim como a chuva lá fora.
O trabalho de parto já durava algumas horas e a dor também, embora ela não tivesse se queixado às enfermeiras.
Quando o céu escureceu por completo, a dor se espalhou e quase a deixou inconsciente.
No fundo, a Lena sentia que a maior dor seria sofrer tudo aquilo de novo, como havia sofrido para ter o primeiro filho.
De repente percebeu que estava em movimento, uma voz de mulher dizia para ela que estavam indo para uma sala, no bloco cirúrgico, que ficava em um outro andar. Entraram no elevador a maca com a Lena em trabalho de parto e mais duas pessoas.

Neste momento, a escuridão que estava lá fora invadiu o prédio todo. Havia faltado luz no bairro, na rua, em tudo, inclusive no Hospital Getúlio Vargas e o elevador parou, ali mesmo, entre dois andares.
Havia ainda um outro problema que a Lena só ficaria sabendo depois: todo o andar da maternidade estava interditado para uso, devido a uma dedetização. A paciente estava sendo levada a um outro andar.
As rádios de Porto Alegre deram a notícia: parturiente presa no elevador por falta de luz no bairro Independência e pediam à empresa que retornasse a energia para poderem tirá-la de lá.
Enquanto a luz não retornava, as providências vinham sendo tomadas. Naquele meio andar, a porta foi forçada e ela carregada por muitas mãos e braços - entre eles os do marido - para uma outra maca, até chegar na sala em que aconteceria, finalmente, o parto.
Logo na entrada, ela viu o rosto que a deixou mais calma: o do doutor Davi Gerschmann. O doutor Davi era médico conhecido da família e já atendia os Pinheiro(s) de longa data.
A Lena então se acalmou e depositou toda sua esperança naquele homem.

A dor era lancinante e as contrações do parto iam e vinham, não havia mais o que fazer, o negócio era esperar até a criança nascer.
A dilatação era suficiente, porém, algo não permitia que a criança enfim chegasse.
Mais um imprevisto estava por acontecer: na sala improvisada, a mesa em que estava a Maria Helena, não resistiu e se desmontou.
Naqueles poucos milésimos de segundo, a cabeça do nenê ficou muito próxima do chão. A queda daquela altura e o choque dos quadris da Lena e da cabeça do nenê fatalmente tiraria a vida dos dois.
Distante dali, na casa da Sônia, o Marcus, sem saber que quase perdia a mãe e o futuro mano, brincava com a Rose, na sala do apartamento da Rua Morretes.

Como herói dessa história verdadeira, estava o reflexo salvador do médico, doutor Davi. Foi ele quem percebeu que a mesa desmontara e ele quem colocou o braço sob a maca, segurando firmemente o peso da Lena até que fossem socorridos.
Restituída a calma a todos os presentes, a Lena retomou a consciência de que algo estava por acontecer.
Foi então que, após muito esforço, fizeram uso do fórceps. A cabeça do nenê foi encaixada entre os dois lados daquele instrumento “bico de pato” e os movimentos de meia rotação tiveram início. Tentaram por mais de 45 minutos, indiferentes às dores da Maria Helena que acompanhava aquela agitação ao seu redor, obviamente sem anestesia.
E a experiência do médico novamente teve papel determinante. Ele sugeriu que o movimento de rotação se iniciasse para o outro lado. Foi assim que, em vez de forçar o giro com o fórceps até o movimento ser bloqueado, a rotação permitiu que o corpo da criança se alinhasse e a cabeça e os ombros do nenê pudessem sair daquela incômoda posição.
O relógio marcava oito horas e quarenta e cinco minutos da noite de 26 de março e no colo da Lena foi colocada uma criança, viva, saudável, com uma cicatriz do fórceps no lado direito do rosto, como uma queimadura.
Antes de pegar no sono de tanto cansaço, a Lena pôde perceber que havia dado a luz a uma menina.

sábado, 28 de maio de 2011

O irmão do Gilson


Naquela nossa primeira casa, o apartamento da Travessa Jaguarão, havia um vizinho, um menino, amigo do Marcus, que frequentava a casa e de quem ele gostava muito, o Gilson. Foi um amigo do qual guardou memórias pela vida toda.
Parceiro desde os primeiros dias e companheiro de brincadeiras, o Gilson foi alguém que eu não conheci, mas de quem o Marcus tinha recordações incríveis.
Aliás, o Gilson tinha um diferencial: um irmão menor.
Aí é que está o grande lance: o irmão do Gilson.
Esse irmão também vinha lá em casa e participava das coisas que eles faziam. O irmão do Gilson brincava junto com eles. Segundo lembrava, era muito legal.
Aí, o destino pregou uma peça no Marcus: a Lena engravidou.

Na foto está o Marcus, feliz - sem camisa - com uma bola nova no quarto e 3 anos e meio de idade, isto é, foi bem nesse periodo em que a história da gravidez da Lena entrou na vida dele.
As explicações que vieram foram tais que a ideia de que uma criança estava sendo gerada lá na barriga da própria mãe, foi bem recebida, dentro de uma grande expectativa.

No fim daquele verão, mais precisamente no dia 26 de março, a mãe foi levada ao hospital.
O Marcus lembrava muito bem dos dias em que a mãe foi “buscar o maninho” no hospital, pois foi uma das poucas vezes em que ele ficou sozinho em casa só com o pai, Mário Feio.

Alguns dias depois, ela voltou. Ver a Lena foi uma grande alegria.
Afinal, a mãe havia voltado, agora ele também teria um irmão para brincar e tudo voltaria a ser como era antes.

terça-feira, 24 de maio de 2011

Soninho da tarde no apartamento da Travessa Jaguarão


A Lena sempre deu muita vida a essa foto. Ela dizia que o Marcus estava muito lindo e lamentava o fundo escuro.

Todo mundo sabe que o Marcus não gostava muito de dormir. Sempre pulou da cama cedo.
Cedo? Não.
Pulava da cama antes que o sol nascesse, de preferência. Marcar um encontro, um compromisso ou um horário com ele era ter a certeza de que ele chegaria uma hora antes, no mínimo.E já estaria bastante irritado quando alguém, não tão pontual, chegasse 10 ou 15 minutos depois da hora marcada...
Bem, o que vamos contar aqui e com essa foto do berço dele no apartamento da Travessa Jaguarão é sobre o soninho da tarde. É normal aos bebês dormirem bastante. Mesmo após os dois, três anos, um soninho para crescer é uma boa pedida.
O Marcus me contou, mais de uma vez, que a Lena – provavelmente bem cansada do serviço da casa – deitava com ele para o soninho da tarde.
Ele lembrava que a Lena pegava no sono, ele não. Talvez tivesse muita pressa para viver. Não dormia, ficava quietinho ali, ao lado dela, até ter certeza de que ela dormia mesmo.
Então, levantava devagar e ia até o parapeito da janela – do terceiro andar, acho – e sentava ali. Isso mesmo, sentava como se fosse um cavalo, uma perna para fora, outra para dentro e cavalgava sozinho, sonhando acordado com as pessoas que caminhavam lá fora, na calçada.
Quando a Lena estava se acordando, ele voltava para cama ou para o chão, para brincar, sozinho e em silêncio. A mãe nunca viu nada, nem suspeitava. O guri, no dia seguinte, fazia tudo de novo.
E o perigo ia aumentando.
Ele contava que um dia, no meio de toda essa aventura ligada à janela e ao seu cavalo imaginário, ele acabou pegando no sono. E descrevia o sonho como se tivesse acontecido ontem. Aliás, o Marcus tem (tinha) uma memória... O sonho que ele me contou era isso: ele saía da cama, sentava na janela e colocava a perna para fora, começava a cavalgar e... caía. Caía mesmo.
No sonho ele caía de um modo tão assustador que ele, mesmo criança, entendeu o recado do perigo que vinha correndo todas as tardes. E, segundo ele me contou, bem sério, nunca mais sentou na janela do terceiro andar para montar a cavalo enquanto a Lena dormia...

domingo, 15 de maio de 2011

A primeira viagem de avião da Lena e “Minestrone”

Avião bimotor Electra, da VARIG, levou a Lena até o seu destino
Após a confirmação do convite e a garantia do amigo Beneamin* (sic) de que a casa do amigo Mário Feio em Fortaleza era a de uma família respeitável, a Lena se preparou para atravessar o país e viver a sua história de amor.
Trabalhou muito e gastou pouco durante meses, até juntar o dinheiro necessário para as passagens. Não sei dizer exatamente em que dia e em que mês do ano de 1963 foi a viagem, apenas sei que a Lena embarcou seus sonhos e toda a sua curiosidade em um avião bimotor da VARIG, um electra.
No caminho, como dissemos antes, houve uma descida no Aeroporto de Brasília.
Depois de algum tempo, os passageiros do Voo VARIG foram avisados de que, por razões técnicas, deveriam passar a noite em um hotel, às expensas da companhia, e tornar a embarcar novamente com destino a Fortaleza no dia seguinte. 
Naquela época, a recém inaugurada Capital Federal estava ainda encoberta por terra vermelha e com a presença do exército nas obras, porém, esbanjava glamour e tudo era novidade.

Talvez tenha sido a primeira em vez que a Maria Helena Pinheiro dormiria em um hotel, ainda mais tão longe de casa.
Seguramente era a primeira vez em que estava hospedada em um quarto de hotel com tanto luxo.
Com todas as despesas pagas, a Lena se viu diante de uma situação inusitada: o cardápio para escolher o jantar.
Essa história ela me contou rindo muito.
Havia muita coisa escrita naquele menu, muitos nomes de pratos, a maioria em língua estrangeira.
Ela, claro, teve vergonha de perguntar o que eram. Leu uma, duas vezes o cardápio e encontrou escrita a palavra “Minestrone”. 
Parou e pensou que era alguma coisa chique, boa de se comer, afinal. Chamou o garçom, uniformizado e formal e disse: “Para mim, Minestrone”.
O garçom retornou um tempo depois, tempo suficiente para a Lena, com fome, imaginar que coisa gostosa estaria saboreando dali a pouco.
Quando abriu a tampa sobre a bandeja, ela descobriu o que havia pedido e saboreou, sem outra alternativa, Minestrone, ou seja, sopa de feijão
E a futura mãe do Marcus e da Cristina seguiu viagem para o Nordeste no dia seguinte, pronta para conhecer seu admirador das cartas e dar início a nossa história.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

13 anos depois...

Na década de 70, quando a família Feio de Lemos morava na Rua Júlio Verne, o Mário Feio decidiu que  a vida de marido, de pai de família e de viajante não exatamente era aquilo com o que ele havia sonhado desde "rapazote" (como ele diria). O fato é que ele se cansou de toda essa rotina enfadonha e, numa manhã do inverno, acordou, levou a filha menor, Cristina, ao Colégio Júlio Grau, para mais um dia no jardim de infância e seguiu para trabalhar.
E nunca mais voltou.
Nem para buscar suas roupas, nem para visitar os filhos, sequer para contar a sua versão da história.
Lembrando do Marcus e do seu jeito sisudo como pai, dá para imaginar o estrago que essa atitude fez na personalidade dele.
Aquele pai amigo, que inventava grandes empreitadas em construir minuciosamente as pandorgas, nas noites de verão, que assava um ou outro churrasco com a maior lentidão desse mundo e que enchia o prato de pimenta a cada refeição, se foi.
Não era uma viagem, das muitas que ele fez em toda a vida da família Feio de Lemos. Não era uma ausência pequena, nem um até logo. Foi um adeus, só que sem nenhuma despedida.
Num certo momento, quando o Marcus conversava comigo (na empresa que ele comandava, a SPASSO - essa é outra história), nos idos de 1991, comentou que foi essa a maior indignação dele com o Mário: o fato muito simples de ele não ter tido o cuidado de olhar na direção dele (filho) e ver o quanto isso afetaria a vida de um menino de 11 anos...
Não foi sem antes deixar a única e decisiva marca que nos perseguiu (a nós, os filhos do casal) durante anos. Numa discussão com a Lena, no calor do momento, entre muitos dos argumentos que ela tentava usar para dissuadí-lo de abandonar a família, ela perguntou: "Mas Mário, e as crianças?" e ele respondeu indignado "Bota num orfanato!".

Esse foi um dos - poucos - detalhes acerca do casamento de tantos anos que a Maria Helena contou para nós, ou para mim, pelo menos.
E esse é o relato da dolorosa separação do casal que se casou de modo tão pomposo em 1964.
Logicamente que a Vera deve saber muuuuuito mais, mas, por fidelidade,  nunca nos contou.
A Sônia também deve saber mais. Todos souberam muito tempo depois.

A necessidade já havia entrado na casa da família, a fome e a falta de emprego - e de salário -  vinham assombrando o casal há meses (anos talvez, eu nunca soube).
Os aluguéis da bela casa de dois quartos na Júlio Verne, com pátio, 2 cachorros e com vizinha nos fundos, estava atrasado há mais de 6 meses.
 E dessa forma, com muita vergonha da situação de separada, a Maria Helena ganhou o mundo a procurar emprego, depois de mais de 12 anos sem trabalhar fora de casa.

Foi, saiu a pé. A pé e de chinelos de dedo da marca Havaianas (seu único calçado). Passou a sair todas as manhãs a procurar um sustento para os filhos e para colocar, como ela dizia anos depois "pelo menos um grão de arroz nas latas".
Sem roupas novas para melhorar a apresentação, carregando o peso de não contar toda a verdade a quem ela se apresentava, encontrou um modo de se sustentar. Primeiro, conseguiu umas "escritas contábeis" para fazer em casa, depois na Metalúrigca Aço Técnica (na Av. Polônia) e, depois, na Lideroil do Brasil Ltda. (primeiro na 7 de abril, depois na fábrica de Gravataí e na Santos Dumont, em Porto Alegre).

sexta-feira, 6 de maio de 2011

A casa dos Pinheiro em Porto Alegre

Um dos capítulos marcantes da história do Marcus e de toda a família, se passa, sem dúvida, na casa da foto, na Avenida Assis Brasil nº 911.
Vindos de Caxias do Sul e indo morar em um primeiro momento lá na São Manoel, perto da Veador Porto e do Colégio Apeles Porto Alegre (onde a Lena iniciou os estudos), a família veio para a Zona Norte.
Cabe ressaltar que, naquela época, no início da década de 50, o então Presidente Getúlio Vargas deu início a um loteamento de casas e de apartamentos para moradia de trabalhadores - a Vila IAPI.  Nosso avô, Joventino Pinheiro, com muitos filhos (foram 9 no total) em conversa com o cadastramento para se candidatar às casas, recebeu  informação de que aquela, a de número 911, havia sido o protótipo, ou seja, o modelo de construção para todas as outras da vila, com o porém de que, segundo o rapaz, não havia previsão de garagem, na prática, nenhuma entrada para carros. Meu avô reagiu rapidamente: "Eu nunca vou ter carro mesmo".
E assim recebeu suas chaves da casa, pelo critério incrível nos dias de hoje: devido ao número de filhos que possuía. Aquela casa maravilhosa, com uma metragem lateral que beirava os 50 metros e onde muitas histórias podem e virão a ser contadas por aqui, entrou na família dos Pinheiro.
Na foto, já envelhecidos, estão a D. Ecilda, o seu Joventino e o mais famoso mascote da família, o Banzé. Sobre esse cão na vida do Marcus, contaremos várias histórias neste blog.

O primeiro encontro da Lena e do Mário, em Fortaleza

Uma vez o Mário Feio de Lemos (também meu pai) me relatou o primeiro encontro pessoal que ele teve com a Lena, Maria Helena Pinheiro. Como vocês já sabem, ele morava em Fortaleza, a Lena morava aqui, no IAPI, na Av. Assis Brasil, 911, Porto Alegre.
Após algumas cartas, surgiu a oportunidade de viajar ao Nordeste e lá foi a Lena, com uma curiosidade imensa no peito e muita vontade de ver o mundo. Voou via VARIG, com escala em Brasília, capital recém inaugurada do Brasil (esta aqui rende uma outra história) e desceu no Aeroporto de Fortaleza, onde embarcou em um carro, se não me engano, um Aero Willys 1963, o "carrão" da época, segundo ele.
Um aero willys 1963 trouxe a Lena até a casa do Mário, em Fortaleza
Com a cara mais sem vergonha do mundo, ele me contou que, quando a porta se abriu toda e a Lena - de vestido e bem acinturado - se virou para descer, entre os tecidos ele teve uma "visão do paraíso" (palavras dele), ou seja, viu a beleza das pernas e entreviu um pouco as coxas da Maria Helena.
Nesse momento, ele contou com os olhos brilhando e sem arrependimento, ele decidiu que queria "que ela fosse dele".
Porém, com uma coisa simples o Mário não contava: para isso, só casando!
Ocorre que, para que isso acontecesse, seria necessário muito esforço da parte dele. Nosso pai estava acostumado a uma vida de playboy, filho da D. Christal (agora viúva) e do Sr. Wilson Fonseca (não tenho bem certeza), gastando bastante dinheiro e sem maiores preocupações.

Bem, o fato é que, se algum rapaz quisesse "ter" uma das filhas do Joventino Pinheiro, ilustre (e humilde) trabalhador da Empresa Zivi Hércules, teria sim de sair de sua confortável situação e vir até o Sul pedir a moça em casamento.

E foi assim que ele fez. Depois de muitas cartas e de muitas promessas no papel, ele teve de voar até Porto Alegre para dizer ao seu Joventino o que queria.

domingo, 1 de maio de 2011

O começo de tudo...


Mário Feio de Lemos, aquele que viria a ser o Pai do Marcus
 Este é o começo da história e começa alguns anos antes do Marcus nascer. Conta um pouco da (nossa) história e dos movimentos que o universo fez para que o Marcus nascesse.

Maria Helena Pinheiro, a irmã do meio dos 9 filhos da Dona Ecilda Flores Pinheiro e do Seu Joventino "Zito" Pinheiro era jovem e bonita. Comos os demais irmãos, 6 homens (Raul Pinheiro, Saul Pinheiro, Rui Pinheiro, José Jones Pinheiro, Roberto Pinheiro e Renato Pinheiro) e 2 mulheres (Sônia Maria Pinheiro e Vera Regina Pinheiro), trabalhou desde guria. Aos 13 anos, a Lena já trabalhava no escritório de Contabilidade do Idelmar Felipe Albrecht, na esquina da Avenida Brasil com a Benjamin Constant.

Maria Helena, aqui com 13 anos, um dia viria a ser a Mãe do Marcus

Dentre aqueles que frequentavam a casa da Dona Ecilda, estava um grande amigo do Saul, funcionário da VARIG, Beneamin *(sic), o qual viajava pelo país e trazia histórias para contar. Numa dessas andanças pelo Nordeste, mais precisamente em Fortaleza, no Ceará, conheceu um rapaz de vinte e poucos anos, filho de Christalina Lemos e de Mário Feio de Lemos, aquele que viria a ser o pai do Marcus um dia, Mário Feio de Lemos Júnior.
Uma vez estimulada a curiosidade dos dois jovens a respeito de um e do outro, passaram a se corresponder e, da troca de cartas, veio a necessidade de se conhecer. Assim, das economias da Lena saiu a passagem aérea até Fortaleza (embarcada no duas hélices Elektra - mas essa é outra historia) e, mesmo tendo nascido em diferentes extremos do país, iniciaram o namoro.
O ano era 1963 e, numa das visitas do Mário Feio ao Rio Grande do Sul, mais precisamente no apartamento da Morretes onde moravam a Sônia, o Osmar e a Rosemary (aqui também rende uma oooooutra história), ficou traçado o destino da Lena e do Mário e, num encontro mais tórrido, Deus disse: FIAT MARCUS.